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segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Homothumadon

"Assim que eles ouviram isso, adoraram todos juntos [homothumadon] a Deus, dizendo: ..." (At 4.24)

Homothumadon é uma daquelas palavras que não se encontra uma tradução adequada na nossa língua. Na passagem acima, bem como em outras onde essa palavra é usada (10 vezes em Atos e 1 vez em Romanos), seu sentido fica enfraquecido. Morfologicamente, homothumadon é composto por homo ("junto", "mesmo") e thymos ("enfurecer-se", "ferver"). Entender, então, essa palavra apenas no sentido de "unanimidade" pode nos fazer perder toda sua amplitude e aplicação na nossa vida como cristão.

Segundo o Pr. Eugene Peterson, homothumadon tem uma força particular: ela provoca o leitor-ouvinte a uma relação intensa e amorosa com as pessoas e destaca o sentimento de fúria ou de intrepidez ligados à vida de paz e humildade. Pode-se dizer, assim, que essa palavra contém a energia da raiva, sem o sentimento de raiva; possui a emoção forte de um ataque a alguém, sem, contudo, expressar maldade ou dolo. E, ainda, se for aplicada num contexto comunitário de igreja, fornece a base das relações interpessoais, isto é, humildade na postura diante do outro e paixão em promover o reinar de Deus na comunidade.

Sem dúvida, pelo exposto, pode-se perceber que homothumadon é um desafio para todos os discípulos de Cristo. Principalmente, porque viver, ao mesmo tempo, a ambigüidade da intrepidez e da humildade não é comum no nosso tempo. Na verdade, tendemos aos extremos: somos dominadores ou passivos; somos invasivos ou tímidos; gritamos ou nos calamos. Talvez essa polarização nos comportamentos seja fruto de um estilo cartesiano e maniqueísta da sociedade ocidental. Há muita dificuldade, então, em se pensar (e viver!) baseado em um sistema complexo ou múltiplo; o paradoxo da vida não faz parte do nosso dia a dia.

Jesus, por outro lado, mostra com sua vida que viver o homothumadon na igreja e no mundo é possível. Com seu agir amoroso ele promoveu uma revolução radical na sociedade onde viveu e que tem impacto até os nossos dias. Ele amou a todas as pessoas incondicionalmente, mas não deixou de expulsar do templo os mercadores que exploravam os pobres; tratou com dignidade mulheres, crianças, leprosos e prostitutas, mas não deixou de exigir que todos carregassem a sua respectiva cruz; andou com publicamos, religiosos e pessoas de alta classe, mas nunca deixou de manifestar-se contra a religiosidade, a ganância e a vida sem generosidade. Sim, é possível experimentar o homothumadon. Pois, se o grande objetivo de nossa vida é ser semelhante a Cristo, não podemos estabelecer metas menores do que ser como Jesus foi. É compromisso de todo discípulo-seguidor, portanto, estabelecer um esforço contracultural, além, é claro, de uma vida dedicada à oração e à piedade, para levar isso a bom termo.

Cabe destacar, finalmente, que houve pessoas que experimentaram esse sentimento-ação chamado homothumadon. Uma delas chama-se Mohandas K. Gandhi. Apesar de não ter se tornado cristão, ele viveu o Sermão da Montanha de Jesus até as últimas consequências e proporcionou a libertação da Índia do jugo inglês através da paz, da vida simples, do amor incondicional e da desobediência civil. Outra pessoa digna de ser lembrada é o indiano da seita sik Sadhu Sundar Singh. Mesmo diante de perseguições, prisões e privações ele foi um destemido arauto do evangelho na Índia e no Tibete, munido apenas de um Novo Testamento.  Pregou, ainda, nos EUA e em diversos países da Europa, mas nunca deixou seu estilo de vida simples e seu propósito de anunciar o evangelho nos arredores do Himalaia.

Da mesma forma que Gandhi e Sadhu Sundar Singh, com certeza, existem muitos anônimos que viveram (e vivem!) aquilo que foi proposto por Jesus. Eles não são, por isso, heróis, mas apenas aqueles que fazem o que devem fazer (como “servos inúteis” – Lc 17.10); são, porém, discípulos fiéis que experimentam e desfrutam o reino de Deus antecipadamente.

Rev. Vinicius.

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Oração comunitária


A oração modelo de Jesus Cristo, expresso no título “Pai-Nosso”, não é uma oração solitária, mas feita em comunidade. O contexto bíblico fundamental é a adoração. É por isso que o culto público parece ser o único contexto no qual podemos recuperar a profundidade do Evangelho. Isso significa que aprendemos a orar na comunidade, que aquilo que fazemos a sós é algo que extraímos da adoração da comunidade. Assim, a oração não cessa e tem formas alternativas quando você está sozinho, mas a perspectiva da coletividade vem primeiro. Infelizmente, a experiência dos cristãos inverteu a ordem. Na longa história da espiritualidade cristã, entretanto, a oração comunitária é mais importante e depois a individual.


Baseado em E. Peterson – O Pastor Contemplativo, pg. 17

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

20 de Setembro


A cultura gaúcha, presente particularmente no Rio Grande do Sul, é caracterizada pela aproximação com o gaúcho, um campesino apegado à lida do gado que possui uma expressão cultural própria, tanto na linguagem, na vestimenta e no lazer como na ética, na religiosidade e na relação com a família e sociedade. E mesmo aqueles que não têm contato direto com o campo, vivenciam essa cultura através do chimarrão, da música, do artesanato, dos símbolos gaúchos e dos Centros de Tradição Gaúcha (CTGs), além de muitos comportamentos característicos.

Sendo assim, vamos aproveitar a Semana Farroupilha, a qual se encerra no dia 20 de setembro, para lermos a identidade cultural do gaúcho à luz do Evangelho. É necessário, para isso, estarmos dispostos a dialogar com ela, percebendo que há muitos valores cristãos que estão em harmonia com os valores gaúchos, embora alguns nem tanto... 

Que os seguidores do caminho de Jesus se unam ao brado riograndense (mostremos valor constância, nessa ímpia e injusta guerra; sirvam nossas façanhas de modelo a toda a terra), a fim de promover o reinar de Deus em todas as querências do mundo.


Com diz Teixeirinha: “... Deus é gaúcho, de espora e mango; foi maragato ou foi chimango...”

sábado, 7 de setembro de 2013

Sobre AMAR

Numa entrevista, o neurobiólogo chileno de 84 anos, Humberto Maturana, fala sobre a necessidade de vivermos a partir do amor.

"O ser humano não vive só. A história da humanidade mostra que o amor está sempre associado à sobrevivência. Sobrevive na cooperação. Se a mãe não acolhe o bebê, ele perece. É o acolhimento que permite a existência. Numa de suas parábolas, Jesus fala do camponês lançando sementes ao solo. Algumas caem nas pedras e são comidas pelas aves, outras caem num solo árido e resistem por pouco tempo. Mas há aquelas que encontram boa terra e crescem vigorosas. Assim também nós precisamos de um solo acolhedor para nos desenvolver. Nosso solo acolhedor é o amor."

Nessa perspectiva, o desafio cristão é compreender e viver o amor revelado em Jesus, o qual busca o bem do outro e não a satisfação da necessidade de ser amado. Deus nos convida a fazer o que Ele fez: morrer para salvar quem não merece:

"Pelo homem bom talvez alguém tenha coragem de morrer. Mas Deus demonstra seu amor por nós: Cristo morreu em nosso favor quando ainda éramos pecadores." (Rm 5.7-8).

O caminho do amor, portanto, é o serviço compassivo e humilde, onde é melhor dar do que receber (At 20.35); onda a motivação não está na retribuição, nem mesmo do amor. É como Paulo descreve em 1Co 13.4-7:

“O amor é paciente e é bondoso. Não é ciumento, nem orgulhoso, nem vaidoso. Não é grosseiro, nem egoísta; não se ira facilmente, não guarda mágoas. O amor não se alegra quando alguém faz algo de errado, mas se alegra quando alguém faz o que é certo. Quem ama nunca desiste. Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. O amor jamais acaba...”

Por outro lado, amar de maneira INCONDICIONAL só é possível porque Deus nos amou primeiro (1Jo 4.19). A palavra ouvida pelo Filho de Deus no seu batismo ecoa até nós: "Esse é meu filho amado, que me dá muita alegria!" (Mt 3.17). Jesus, portanto, cumpriu seu propósito sustentado pelo amor do Pai. E, a partir da mesma base, devemos cumprir o nosso.

Que Deus nos dê a coragem para entrar nessa jornada de amor, conscientes de que vale a pena, pois foi planejada carinhosamente por quem criou todas as coisas. Soli Deo Gloria.

Vinicius.


quinta-feira, 8 de agosto de 2013

LUZES DA LUZ

Mt 5.14-16

"Vocês são a luz do mundo. Não se pode esconder uma cidade construída sobre um monte. E, também, ninguém acende uma candeia e a coloca debaixo de uma vasilha. Ao contrário, coloca-a no lugar apropriado, e assim ilumina a todos os que estão na casa. Assim brilhe a luz de vocês diante dos homens, para que vejam as suas boas obras e glorifiquem ao Pai de vocês, que está nos céus."

Deus chama um povo para ser luz para as nações desde o Antigo Testamento (Gn 12.1-3). Mas essa luz não é uma fonte autônoma; ela aponta, sinaliza para algo maior: a verdadeira Luz. É como o sol: não podemos olhar fixamente para ele, mas ao observar seus reflexos, percebemos sua existência e sua ação.

Somos chamados para ser luzes da Luz, através de atos e palavras. Glórias da Glória, a fim de revelar o Pai. Ansiamos, portanto, que Deus revelado em Jesus seja discernido em meio a tantos brilhos espalhados pelo mundo (Jo 1.18), pois temos crido e reconhecido Ele como o único doador da vida plena (Jo 6.68), o qual nos ilumina para experimentar e anunciar o governo de Deus entre todas as nações.

A Deus seja dado todo o louvor!

Vinicius.

sexta-feira, 26 de julho de 2013

Como você gostaria de ser lembrado?

Há dois anos, dia 27 de julho de 2011, morria em Londres aos 90 anos John Stott. Veja como ele gostaria de ser lembrado...

“Como um cristão medíocre que foi resgatado e teve o desejo de entender, expandir, relatar e viver a Palavra de Deus”


Ver em Ultimato

quarta-feira, 24 de julho de 2013

Henri Nowen: exemplo e admiração

A vida de Henri Nowen é digna de admiração. Além de suas muitas sábias orientações e discernimentos espirituais, merece destaque a sua abnegação. Quando ele foi lecionar em Harvard, a fama e prestígio de Nowen como professor, escritor e conferencista já percorriam o mundo, e em todo lugar por onde passava ele era bastante respeitado. Todavia, tudo isto não bastava para amenizar o profundo vazio espiritual e as feridas pessoais que ele sentia aumentar com o tempo. Tudo isso, combinado com uma vida de fama e agenda lotada de compromissos, levaram Nouwen a um ponto de colapso total num espaço de três anos. Até que ele teve a compreensão, à luz da experiência de Jesus, de que o caminho para subir é descer. Assim, ele abandonou sua brilhante carreira nas melhores universidades dos EUA para compartilhar sua vida com os necessitados, servindo em uma comunidade para deficientes mentais, a Arca - O Amanhecer, em Toronto no Canadá. Conforme o próprio Nouwen disse em seus escritos, “ali ele não foi para dar, mas para receber; não por causa de excesso, mas por falta. Foi para conseguir sobreviver” (YANCEY, P. Alma Sobrevivente, 2004, p. 306).

Sinto algo semelhante quando presto auxílio a grupos de apoio para dependentes químicos. Não é egoísmo, mas convicção de limites e da necessidade de outros para seguir na jornada da vida. Na verdade, nesse momento percebo o quanto sou dependentes da graça de Deus e experimento a verdadeira força que vem da fraqueza.
Vinicius
(Ver em FTL)